A transmissão da franquia Super Sentai será encerrada com a atual "Nº 1 Sentai Gozyuger". Shinichirō Shirakura (Diretor Executivo Sênior da Toei), concedeu uma entrevista exclusiva para a TV Asahi explicando a real intenção por trás da decisão.
Confira abaixo a transcrição completa da entrevista.
TV Asahi: Com o encerramento de Gozyuger no ano que vem, a série Super Sentai realmente terminará?
Shirakura: Não, eu não considero que a série acabou. É uma pausa. O horário de transmissão da TV Asahi (domingo, 9h30) será ocupado por algo novo, mas as obras de Sentai podem eventualmente voltar.
Desde outubro, antes mesmo do anúncio oficial, já havia reportagens sobre "o fim de Sentai", e não esperávamos tanta repercussão. Isso mostra o quanto a franquia é amada. Mas, mesmo que retorne um dia, acredito que deveria haver uma pausa de cerca de 10 anos.
TV Asahi: Porquê essa pausa?
Shirakura: Porque estamos chegando ao limite do formato. Tentamos diversas inovações ao longo do tempo, mas ao completar 50 anos ficou claro que precisamos repensar tudo desde a raiz.
TV Asahi: O que significa esse limite dos Super Sentai?
Shirakura: Existem dois "navios negros" que pressionaram a franquia.
O primeiro é a era do streaming pós-pandemia. No streaming, séries antigas e novas ficam lado a lado.
Para Sentai, não apenas Kamen Rider é concorrente, as séries antigas de Sentai também viram rivais. Sentai muda seu mundo todo ano, sem continuidade, e isso faz com que o público não saiba por onde começar. Em comparação com séries antigas, que já têm reputação sólida, o novo Sentai só vence se tiver um diferencial muito marcante e isso se tornou cada vez mais difícil.
O segundo "navio negro" é o grande avanço dos heróis dos quadrinhos americanos. Os Vingadores são populares até no Japão. Personagens como Capitão América e Homem de Ferro vêm de obras diferentes, mas foram reunidos num único pacote com personalidades e habilidades claramente definidas.
Super Sentai também é um grupo de heróis, mas os personagens mudam todo ano e não têm uma personalidade tão definida quanto os heróis ocidentais. Tentamos várias coisas para superar esses dois desafios, mas chegamos à conclusão de que era hora de assumir um novo tipo de desafio.
TV Asahi: Mas Super Sentai lançou muitas ideias novas. Por exemplo, em Zenkaiger (2021), onde quatro dos cinco membros eram robôs. Sentai sempre tentou coisas ousadas.
Shirakura: Sim, fizemos vários testes. Mas, para o público entender o que é "novo" dentro de Sentai, ele precisa conhecer o "acordo tácito", o "padrão" da franquia. E quebrar esses padrões só funciona se o público tiver esse repertório.
TV Asahi: Mesmo sendo tão famoso, o conteúdo de Super Sentai não é realmente compreendido pelo público?
Shirakura: Esse sempre foi o problema. Depois de 50 anos, Sentai virou parte da cultura japonesa. Mesmo quem nunca assistiu sabe imaginar "cinco heróis de roupas coloridas". Mas isso tem um lado perigoso: Super Sentai virou algo que as pessoas acham que "não precisam assistir".
Você liga a TV todo domingo e está sempre lá. A história-base não muda. Quem viu na infância pode até achar reconfortante, mas também pensa "não precisa mudar". Quando isso acontece, a obra corre o risco de virar algo irrelevante. E o público passa a pensar: "Posso ver só os antigos. Nem preciso acompanhar o novo".
Para quem cria a série, esse pensamento é apavorante. Além disso, essa sensação de "Super Sentai é o de sempre" também afeta os criadores.
O importante não é "como se destacar dentro do formato Sentai", mas sim pensar no que é realmente necessário como obra para as crianças de 2025 e para o mundo.
A Toei tem muita experiência em fazer Super Sentai, mas essa própria experiência pode atrapalhar a criação de algo realmente novo. Por isso acredito que a velha geração precisa dar lugar e deixar que uma nova geração crie um novo tipo de Super Sentai daqui a 10 anos.
TV Asahi: Muitos fãs gostam da leveza de Super Sentai, em contraste com o clima mais sério de Kamen Rider.
Shirakura: Super Sentai tem seus clichês: cinco pessoas se transformam e fazem pose, derrotam o monstro, há uma explosão atrás deles, entram num robô gigante e destroem prédios… É bobo e é justamente isso que é bom. É alegre.
Quando entrei na Toei em 1990 e participei da reunião de Zyuranger (1992), o produtor Takeyuki Suzuki começou perguntando: "Como vamos fazer o inimigo ficar gigante desta vez?".
E o roteirista ficou furioso: "Isso está errado! A primeira coisa é decidir que tipo de programa queremos fazer!". Suzuki era veterano, mas já tinha chegado ao ponto de "iluminação": sabia que o formato precisava ser daquele jeito para Sentai funcionar.
TV Asahi: Zyuranger era tratado como o último Super Sentai naquela época?
Shirakura: Sim. Naquele tempo, Super Sentai já estava à beira da extinção. Zyuranger foi feito com o espírito de "talvez seja o último". Os jovens do time queriam tentar algo nunca feito: colocar o sexto membro no meio da história. Hoje isso virou padrão, mas na época não era óbvio.
E então aconteceu o "milagre": Zyuranger virou a base para Power Rangers, que explodiu nos Estados Unidos.
TV Asahi: Por que Super Sentai foi amado por tanto tempo?
Shirakura: Sentai não é algo lógico. Ele nasceu de um “acidente". Havia um projeto de juntar cinco Kamen Riders, mas ele fracassou. Chamaram Ishinomori para criar algo de última hora e ele criou Gorenger (1975).
Depois, com a pausa dos animes de robôs como Combattler V, o elemento de robôs gigantes migrou para Super Sentai. Os criadores da época não tinham tempo para idealismo teórico, tinham que entregar algo.
E disso nasceu Super Sentai: uma coleção de soluções improvisadas que, no fim, se tornou um produto incrivelmente carismático.
Por que cinco pessoas? Por que um robô gigante? Ninguém sabe ao certo.Mas é justamente isso que revela algo essencial sobre o ser humano: "Não sei por quê, mas é legal". Sentai mostra a essência da diversão no entretenimento.
TV Asahi: É cada vez mais difícil retratar bem versus mal.
Shirakura: Com o fim da Guerra Fria, ficou difícil representar o conceito de "mal absoluto". Mesmo assim, Super Sentai tentou evoluir, criando vilões e personagens mais complexos, mantendo o espírito de cinco pessoas unidas lutando juntas.
Mesmo que as crianças não percebam na hora, talvez entendam quando adultas: "Sentai dizia algo importante". Sinto que Super Sentai mora no coração dos japoneses. Se impactou a sociedade de forma positiva, fico feliz.
TV Asahi: Encerrar uma série de 50 anos não gerou conflito interno?
Shirakura: Nenhum conflito.
TV Asahi: Uma resposta direta, como um herói.
Shirakura: Sou grato aos fãs. Mas para as próximas gerações, precisávamos iniciar um novo desafio. Agora é a hora de repensar o gênero de heróis como um todo. E isso começa com o sucessor de Gozyuger: Gavan Infinity.


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